Discípulos de Cristo: Renúncias e recompensas

Introdução

Dos quatro Evangelhos, Mateus registra a maior quantidade das instruções de Jesus aos seus doze discípulos. Podemos extrair muitas lições sobre o discipulado a partir desta perícope.

Os escolhidos para a missão apostólica (chamados), são doze, como as tribos de Israel (19.28), como a família do novo Israel de Deus; Jesus concede-lhes autoridade (7.29). A equipe é marcada pela diversidade, pois alguns têm nomes hebraicos e outros gregos, alguns são pescadores, há um publicano, um zelota, entre outros. Esse grupo de homens escolhidos encontra em Jesus o seu centro e liderança maior.

Os doze discípulos devem levar a mensagem de Jesus a respeito do reino de Deus que se apresenta (4.7). Vão investidos do poder de curas, à semelhança do demonstrado por Jesus. No plano de Jesus, os judeus deviam ouvir o evangelho primeiro, e depois os gentios. “Não se dirijam aos gentios, nem entrem em cidade alguma dos samaritanos. Antes, dirijam-se às ovelhas perdidas de Israel” (10.5-6).

A missão apostólica também é marcada por solidariedade e dependência. Os discípulos não devem levar nem ouro, nem prata, nem cobre. Não devem levar saco de viagem, nem túnica extra, nem sandálias, nem bordão. Ou seja, os discípulos deveriam contar com a solidariedade do acolhimento das pessoas, vilas e cidades que os recebessem. Assim, os mensageiros do reino de Deus, de alguma forma, colocam-se em uma condição de dependência dos seus receptores. “O trabalhador é digno do seu sustento” (10.10).

 

1. Escolha, instrução e perseguições

Os sofistas gregos, palestrantes itinerantes que andavam de um lugar para outro nos tempos do Novo Testamento, geralmente portavam um saco de viagem (mochila), apontando, dessa forma, para a sua autossuficiência. No caso dos discípulos de Jesus, mensageiros do evangelho, não devem portar mochilas, logo, uma clara alusão da dependência de Deus e da boa vontade das pessoas.

A missão dos doze requer muita cautela, pois eles enfrentarão forte oposição (16). Nem todas as casas os receberão bem; como escreveu Tasker: “Devem esperar perseguição, pois são discípulos e emissários de um Mestre que, Ele próprio, foi desprezado e sofreu abusos, e cujo ensino sempre causará divisões entre os homens, e não menos entre os membros da mesma família”.[1] As perseguições serão internas (sinagogas), e externas (reis). Contudo, o mais doloroso é que a perseguição proceda de familiares e conhecidos (21-22). O motivo da perseguição é “por minha causa”, por causa de Jesus (22).

É diante deste cenário de sofrimentos e perseguições, que Jesus declara aos seus discípulos: “Não tenham medo”. “Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados” (10.28-30). Tudo está nas mãos de Deus (Sl 31). Mesmo os sofrimentos não estão fora do controle divino. A providência divina utiliza-se dos sofrimentos para o amadurecimento de seu povo. Evidentemente, que não é fácil aceitarmos a ideia de sofrimentos permitidos por um Deus bom e amoroso, mas é justamente isso que a Escritura nos ensina. O discipulado de Jesus não “blinda” a nossa vida contra as intempéries, mas pelo contrário, pode ser que muitos sofrimentos experimentados por nós sejam justamente decorrentes de termos abraçado com seriedade o seguimento de Jesus.

Entretanto, nem tudo é sofrimento no discipulado de Cristo, pois há uma promessa: “Quem, pois, me confessar diante dos homens, eu também o confessarei diante do meu Pai que está nos céus” (10.32). Assim, o discipulado e a missão terminam “nos céus”.

 

2. Desafios

Nesta passagem de Mateus, o enfoque continua no custo do discipulado cristão. Jesus disse: “Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada” (10.34). Geralmente, não pensamos em Jesus como o portador da paz? Não ensina a própria Escritura que Jesus é o portador da paz? Então, por que Jesus diz que veio trazer uma espada e não a paz? A diferença é onde você procura essa paz. De acordo com Lucas, os anjos, por ocasião do Natal, proclamaram aos pastores que a mensagem deles seria uma notícia que traria “paz na terra aos homens aos quais ele concede o seu favor (Lucas 2. 8-14). No entanto, convém registrarmos que, essa paz não estava entre os seres humanos nesta terra. Como Jesus deixa claro, sua missão realmente provocará mais controvérsias e conflitos do que de fato trazer a paz.

Basta um ligeiro olhar sobre a história do cristianismo para vermos como essa verdade é concretizada. Inclusive, muitas pessoas usaram Jesus como uma desculpa para se comportar mal e cometer crimes de assassinato. O cristianismo, desde o período da igreja primitiva até às Cruzadas e à Reforma, sempre foi marcado pelo conflito.

Observamos que Jesus invoca uma linguagem do profeta Miqueias para demonstrar como esse conflito pode acontecer em um nível mais pessoal. “Pois eu vim para fazer que ‘o homem fique contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra; os inimigos do homem serão os da sua própria família” (10.35-36). Talvez você teve o privilégio de crescer em uma família comprometida com o evangelho de Jesus, contudo, muitos não têm essa bênção. Todos nós provavelmente temos pessoas em nossas famílias, as quais recuam com a própria menção do nome de Jesus, ou qualquer assunto ligado à religião. Ou seja, elas simplesmente não querem ouvir falar sobre o cristianismo e, muitas vezes, porque não querem ouvir, passam a nos atacar.

Portanto, vemos aqui que a lealdade a Jesus causa divisão, porque está acima de qualquer outra, mesmo familiar. De acordo com Luís Schökel: “Não é que Jesus provoque ou declare a guerra, mas a sua mensagem provoca a hostilidade dos que a rejeitam”.[1] Desse modo, os inimigos dos discípulos seriam gente de sua própria família.  Na verdade, a chegada do reino de Deus, anunciada por Jesus, relativiza todas as relações humanas, de modo que a prioridade passa a ser o seguimento de Cristo. Jesus não está fazendo nada mais do que reafirmar o primeiro mandamento: “Não terás outros deuses além de mim” (Dt 5.6-7).

 

3.Renúncias e recompensas

O panorama histórico da solitude mostra a importância deste sentimento para os cristãos e para a igreja em toda a história. Barbosa destaca a história do deserto na tradição cristã apresentando diversos movimentos que emergiram desse lugar entre os séculos III e XV, os conhecidos “pais do deserto[21]”, com suas orientações, mestres da espiritualidade do silêncio, pessoas que migraram para os desertos e lugares solitários do Oriente Médio, levando consigo apenas o desejo sincero de resgatar uma espiritualidade que haviam perdido no processo de secularização, alguns se organizaram em comunidades, outros optaram pelo eremitismo[22], com o único objetivo caminhar em direção a um verdadeiro encontro com Deus[23]. Nouwen admite que uma vida sem um lugar deserto, isto é, sem um centro tranquilo, torna-se facilmente destrutiva, quando se apega nos resultados quantitativos de promoção pessoal, torna-se possessivo e a pessoa fica na defensiva e, tende a ver o outro como inimigo[24].

Entre todos os movimentos do deserto, o monasticismo foi o movimento que mais influenciou a solicitude na história da igreja. Barbosa comenta que a partir do ano 311 D.C., na época em de paz conquistada pelo imperador Constantino estava sendo implantada e os cristãos, ainda procuravam se adaptar com as mudanças sociais e religiosas imposta pelo império, dentro deste contexto, surgiu um movimento religioso de resistência, de forma variada, procurou manifestar sua rejeição aos novos dogmas imperialistas, era um movimento contracultural, tanto dentro como fora da igreja[25]. Ainda, Barbosa cita o livro de Atanásio, Bispo de Alexandria que escreveu a obra: “A vida de Santo Antônio”, a biografia daquele que é considerado hoje o pai do monasticismo, sendo que o próprio Atanásio reconhece que o movimento começou com a conversão de Antônio e, consequentemente, sua busca por uma perfeita comunhão com Deus no deserto[26]. Cabe destacar que o movimento monástico trouxe grande contribuição para o desenvolvimento da solitude e para a espiritualidade cristã, o qual enaltece a importância da solitude para a vida cristã.

Ao entardecer, quando o sol se pôs, trouxeram-lhe todos os que estavam enfermos e endemoninhados. 33 E a cidade inteira aglomerou-se à porta. 34 E Ele curou muitos doentes de diversas enfermidades e expulsou muitos demônios. Não consentia, porém, que os demônios falassem, pois sabiam quem era Ele. Jesus deixa secretamente Cafarnaum e percorre a Galiléia. 35 De madrugada, estando ainda escuro, Ele se levanta e retirou-se para um lugar deserto e ali orava[27]. Nouwen interpreta esse texto do Evangelho de Marcos dizendo que em meio às frases carregadas de ação: Curar, expulsar e responder. Depara-se com palavras serenas: “De madrugada, no escuro da noite, Jesus levantou-se e saiu, retirando-se para um lugar deserto; ali, ele orava”. Cercados por horas de movimentos encontra-se um momento de tranquilidade, no coração de muitas tarefas, há palavras de recolhimento, em meio à ação, à contemplação. É no lugar deserto que Jesus acha a coragem e a fé de fazer a vontade de Deus, não a sua, onde desenvolve a intimidade com Deus Pai, e encontra forças para desenvolver seu ministério [28].

O seguimento de Jesus também implica em “carregar a cruz”, que nos fala, entre outras coisas, das dificuldades e renúncias inerentes ao discipulado cristão. Jesus é categórico: “[…] e quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim (10.38)”. Pelos costumes romanos, os criminosos eram obrigados a levar a cruz ao local da execução. Sendo assim, os galileus saberiam muito bem o que significava “tomar a cruz”. Irvin Jensen observa que esta é a primeira das vinte e oito ocorrências da palavra “cruz” no Novo Testamento.[2] “Tomar a sua cruz” significa estar disposto a sofrer morte de mártir, como um criminoso sentenciado. Este é o sentido original. Em um segundo momento, pode significar a morte para os próprios interesses, a fim de servir ao reino de Deus.

 

Considerações finais

Por fim, a presente passagem de Mateus, trata das recompensas aos que bem acolherem os discípulos de Jesus. Embora a bondade feita aos enviados de Cristo seja pequena, como dar um “copo de água fria”, ela será aceita. Jesus também diz algo muito poderoso: “Quem recebe vocês, recebe a mim; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou”. Existe, portanto, uma unidade espiritual entre Jesus e os discípulos, de modo que, também poderíamos dizer que rejeitar os discípulos significa rejeitar o próprio Jesus e aquele que os enviou.

O discipulado cristão, como vimos nessa passagem de Mateus, gera inevitáveis conflitos, pois tira as pessoas da sua zona de conforto, ao confrontá-las com os valores do reino de Deus. Por conseguinte, há muitas dificuldades e renúncias no caminho do discípulo cristão, assim como recompensas, inclusive para àqueles que bem os acolhe e ajuda.

     A expressão “cruz”, no discipulado cristão, não se refere ao sofrimento natural ou social. A cruz não é ligada ao sofrimento da existência natural, mas às tribulações do viver como cristão. De maneira surpreendente, Mateus 10.38 não afirma, talvez de propósito, que os discípulos devem tomar a cruz de Cristo, mas cada um “toma a sua cruz”. Logo, não podemos nivelar a nossa cruz com a cruz de Jesus. Ele sofreu e morreu solitariamente e levou sobre si “os pecados do mundo”. A nossa cruz pode ser pesada, porém é muito “menor” quando comparada com a do Salvador. Além disso, não estamos sozinhos, pois contamos com o aporte da congregação. Sigamos avante!

 

 

REFERÊNCIAS

SCHÖKEL, Luís Alonso. Bíblia do peregrino: Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 2000. p. 70.

NSEN, Irving L. Mateus: estudo bíblico. Mundo Cristão: 1984. p. 53.

TASKER, 1980, p. 83.