A pregação de João Batista

INTRODUÇÃO

O destinatário do evangelho de Mateus se apresenta como a comunidade de Mateus formada por judeus seguidores de Jesus, os conhecidos judaizantes. Os problemas enfrentados por essa comunidade em relação a sua fé se concentravam no rompimento com a tradição judaica. Os desafios para a igreja de Mateus era buscar uma identidade que conseguisse manter a herança judaica e, paradoxalmente, acolher a fé em Jesus, o Messias Prometido. Diante disso, Mateus escreveu o evangelho para dar resposta à comunidade mateana que vivia em crise, a respeito da messianidade de Jesus de Nazaré.

 

Como já esboçada, a comunidade de Mateus passava uma terrível crise de fé. Desta forma, o autor detalha o percurso messiânico, inserindo narrativas e discursos os quais trazem fundamentos histórico-teológicos que confirmam ser Jesus de Nazaré o messias. Sendo assim, o texto começa apresentando o testemunho messiânico de João Batista. Ele começou a pregar sobre a vinda do Reino dos Céus no deserto da Judeia. Logo, foi às margens do histórico rio Jordão que iniciou o ministério de “Precursor de Cristo”, este anúncio durou pouco tempo, aproximadamente seis meses.  No entanto, João Batista possuía uma missão singular de contribuir efetivamente no ministério de Cristo.

 

Os personagens teológicos da narrativa são: João Batista, os Fariseus e os Saduceus. O objetivo do autor: enfatizar para a comunidade de Mateus a pessoa e o caráter profético e messiânico de João Batista, destacar a mensagem e o Batismo de João e mostrar a relação do ministério de João com o de Jesus, como o messias prometido. Judaizantes seguidores de Jesus vindos da religião oficial dos judeus, o judaísmo. Apesar de reconhecer Jesus como Messias ainda aguardam a lei de Moisés e os costumes da tradição judaica.

 

1. O surgimento de um profeta

 

Naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judeia e dizendo: “Arrependei-vos, por que o Reino dos Céus está próximo”. 3 Pois foi dele que falou o profeta Isaías, ao dizer: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, tornai retas suas veredas. João usava uma roupa de pêlos de camelo e um cinturão de couro em torno dos rins. Seu alimento consistia em gafanhotos e mel silvestre (Mt 3.1-4)[1].

 

Cabe destacar o lugar onde João Batista surge, o deserto.  Este local de anúncio do profeta é considerado, no Antigo Testamento, a terra das potestades, de terror e dos sobressaltos. Isso contraria o pensamento da religiosidade judaica, o qual esperava que este anunciador do messias viesse do grandioso templo. Porém, o autor usa a seguinte fórmula literária: “Para que se cumprisse o que fora dito”, com o objetivo de legitimar e trazer luz para a comunidade mateana à interpretação fidedigna das Escrituras Veterotestamentárias. Logo, o mistério de João se constitui em preparar o caminho para o messias. Dentro do contexto da época, consertar o caminho para o rei significava anunciar a sua chegada e se tratava de um trabalho árduo[2]. O modo de João Batista suprir suas necessidades fisiológicas (alimentação, vestimenta e habitação) demonstra para a igreja mateana a contrariedade quanto aos costumes do judaísmo, visto haver uma tensão na comunidade para o retorno à tradição judaica.

 

Então vieram até ele Jerusalém, toda a Judeia e toda a região vizinha ao Jordão. E eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. Como visse muitos fariseus e saduceus que vinham ao batismo, disse-lhes: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Produzi, então, fruto digno de arrependimento e não penseis que basta dizer: ‘Temos por pai a Abraão’. Pois eu vos digo que mesmo destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores e toda árvore que não produzir bom fruto será cortada e lançada ao fogo (Mt 3.5-10)[3].

 

O aparecimento de João Batista no rio Jordão tornou- se um acontecimento singular e, consequentemente, um movimento divino, devido a sua pregação e seu batismo[4]. As pessoas eram dirigidas pelo Espírito Santo até ele no rio para serem batizadas. O autor destaca a chegada de dois grupos ilustres do judaísmo, os fariseus e saduceus que vinham ao batismo. Esses grupos representam o melhor da espiritualidade da religião judaica, guardadores e praticantes da lei e dos costumes judaicos. Apesar disso, João chama os fariseus e saduceus de semente de cobras e não o que eles presumem, semente de Abraão[5]. Essa expressão remete à velha serpente que significa “pai da mentira”.

 

Assim, o autor denuncia para a comunidade de Mateus, diante da pregação de João, que os discursos dos fariseus e saduceus são venenos de víboras, o que vocês possuem da semente de Abraão foi transformado no seu contrário, e por isso, paira sobre vocês a mais antiga maldição de Deus. Diante disso, o batismo de João era total, visto que os judeus já conheciam vários tipos de batismos (no sentido de lavagens e banhos religiosos), e o batismo único era só para os pagãos. Todavia, na mensagem de João, este batismo se tornou a única condição para o ingresso no “Reino dos Céus”, sendo que defendia como arauto do reino vindouro que o atual povo de Israel tornou-se um acampamento de impuros ou pagãos[6]. Por isso, o juízo iminente por meio da analogia da árvore e seu fruto.

 

Eu vos batizo com água para o arrependimento, mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. De fato, eu não sou digno nem ao menos de tirar-lhe as sandálias. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo.  A pá está na sua mão: vai limpar sua eira e recolher seu trigo no celeiro: mas, quanto à palha, vai queimá-la num fogo inextinguível (Mt 3.11-12)[7]. Para o autor de Mateus, o batismo em águas é uma exigência, cujo objetivo é a conversão. Por isso, João batiza para que se abandonem os pecados, com o objetivo de viver em obediência a Deus na nova vida do reinado dos céus[8]. Neste sentido, a conversão não pode ser um acontecimento contínuo que se renova de caso em caso, mas se constitui única e singular. Desse modo, o autor chama a atenção da comunidade mateana dos perigos ao retrocesso, diante do batismo e da conversão que sustentam a continuidade, o desenvolvimento e o crescimento da espiritualidade, daqueles que são participantes da nova vida em Cristo.

 

Em seguida, após relatar o batismo com água, o autor descreve a afirmação de João sobre “aquele que vem depois de mim”[9]. Apesar disso, o que vem de trás é o mais forte. Para ampliar este conceito, João se utiliza da figura do escravo, que serve ao seu senhor que chega, retirando-lhe as sandálias e levando-as embora, como sinal de total submissão e humildade. Dessa maneira, João não se considera digno de desenvolver este trabalho de escravo, diante Daquele que vem, ele não é nada. Comparado com Cristo, João desaparece totalmente[10]. Para encerrar, o autor contrasta o batismo de João com o do messias que está vindo com o um paralelismo antitético. Enquanto João batizou nas águas, o messias batizará com o Espírito Santo e com fogo[11]. Com isso, o autor está legitimando, para a comunidade mateana, os princípios do mistério do messias, a santidade e a justiça.

 

2. A missão

 

O conceito teológico que permeia a narrativa chama a atenção para a conversão. O termo mais adequado de acordo com o contexto não é “arrependei-vos” (fazei penitência), mas em vez disso “dai meia volta”, “convertei-vos”[1]. Traduzir o chamado de Jesus e João com a preposição “fazei penitência” expressa de modo insuficiente a mensagem de Jesus e seu percussor, porque a penitência está marcada pelo sentido de penitenciar-se, expiar, reparar o erro. O chamado de Jesus Cristo e João Batista, porém, exige uma conversão radical. Na Bíblia do Antigo Testamento, não existe o conceito do arrependimento no sentido de pagar, expiar e reparar o pecado, sempre é usual: “dar meia volta, renunciar”. São esses termos que deveriam ser usados, pois no Novo Testamento a situação é a mesma[2]. Portanto, a palavra penitência está carregada com ideias que levam exatamente para longe daquilo que a Bíblia destaca com o vocábulo grego metanoia (conversão).

 

No Novo Testamento, a palavra metanoia estende-se sobre a opinião e o pensamento totais da pessoa. A totalidade do pensamento e da atitude necessita mudar! Este vocábulo, metanoia, tem um novo sentido, constitui-se em um dos conceitos principais das escrituras neotestamentárias. Ela faz parte do que é mais essencial na própria fé cristã[3]. A metanoia (= meia volta, conversão) do Novo Testamento considera a totalidade do pensar, sentir e querer do passado como inteiramente errada, como “longe de Deus”. Por conseguinte, conversão é a mudança de todo o pensar, sentir, querer e agir. Assim, Deus quer dar uma nova vida, não apenas uma nova mentalidade! Dessa forma, tal conversão radical e total permanece sendo a única premissa para entrar no “reino dos céus”[4].

 

A conversão não é produto do esforço humano, mas é dádiva de Deus. Para ilustrar este conceito teológico, pode-se pensar: Quando se joga uma boia salva-vidas a uma pessoa que está se afogando, ela a segura e agarra firmemente com toda a sua energia. Diante disso, a pessoa salva não pode dizer: Eu me salvei, mas terá de dizer: Eu fui resgatada. De igual modo, ter sido salvo é um presente de Deus. Já afogar-se, neste sentido, é a culpa própria, visto que sozinho morreria nas ondas[5].

 

Autor: Dr. Ailto Martins

 

Referências Bibliográficas

[1] BÍBLIA DE JERUSALÉM – São Paulo: Paulus, 2015, p. 963.

[2] RIENECKER, Fritz, 1998.

[3] BÍBLIA DE JERUSALÉM, 2015, p. 963.

[4] RIENECKER, Fritz, 1998.

[5] RIENECKER, Fritz, 1998.

[6]RIENECKER, Fritz. Comentário Esperança – Evangelho De Mateus. São Paulo: Esperança, 1998.

[7] BÍBLIA DE JERUSALÉM, 2015, p. 963.

[8] RIENECKER, Fritz, 1998.

[9] RIENECKER, Fritz, 1998.

[10] RIENECKER, Fritz, 1998.

[11] ARRINGTON, French L. STRONSTAD, Roger. Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento: Mateus – Atos. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.

[12] RIENECKER, Fritz, 1998.

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